Diálogos do Ócio traz inventário de 30 anos de amizade do autor com o poeta

Por Agência 24h
O Rio de Janeiro, “quintal” de Manoel de Barros, de onde o poeta se comunicava ao pequeno mundo, vive um momento especial na terça-feira, 16 de julho. O jornalista e escritor Bosco Martins, que cultivou 30 anos de amizade com o poeta, lança o livro “Diálogos do Ócio”, que traz fatos emblemáticos da vida de Manoel de Barros em Campo Grande, onde viveu seus últimos anos, já consagrado como um dos maiores autores do Pós Modernismo.
- Manoel de Barros é considerado o pantaneiro mais carioca dos poetas
Cuiabano de nascimento, Manoel de Barros despertou para a literatura no Rio, onde conviveu com importantes nomes do mundo literário. Passou a primeira infância no Pantanal sul-mato-grossense e tornou-se o pantaneiro “mais carioca” dos poetas.
Bosco Martins teve o privilégio da amizade com o poeta, por 30 anos. Uma relação tão próxima que o jornalista era considerado “da família” e acabou se tornando a “válvula de escape” da introspecção e timidez do poeta e por muito tempo foi porta-voz e ponte na relação de Manoel de Barros com a imprensa.
Dessa amizade, nasceu o inventário “Diálogos do Ócio”, uma biografia-reportagem que valoriza a rica memória de Manoel de Barros, imprescindível no acervo e referência do poeta que tinha entre a legião de leitores monstros da literatura, como Carlos Drumond de Andrade, Clarice Lispector, Vinicius de Moraes e José Hamilton Ribeiro, que completa Diálogos do Ócio assinando o Prefácio.
- O lançamento no Rio de Janeiro, programado para terça-feira, 16 de julho, às 19h, acontece na Livraria da Travessa, Shopping Leblon.
“Diálogos do Ócio” chega 10 anos após a morte do poeta e concorre ao Prêmio Jabuti 2024 na categoria “Biografia-Reportagem”. Fatos inéditos da vida literária e pessoal de Manoel de Barros são considerados por acadêmicos e intelectuais como um resgate importante da memória do poeta, uma compreensão singular de sua genialidade e simplicidade.
Como se recorda, em 2017 foi homenageado pela Escola de Samba Império Serrano, com o enredo “Meu quintal é maior que o mundo”, frase pinçada do intrigante vocabulário do poeta que abominava o gentílico pantaneiro por entender que a poesia não tem território, embora o Pantanal fosse uma de suas fontes inspiradoras.
Manoel de Barros viveu no Rio por mais de 30 anos. Fazia uma leitura do mundo de um ponto de vista insólito ou encantado ao recorrer ao Pantanal das cores fantásticas, das águas lentas e das criaturas miúdas para falar de sonhos, impressões e gestos que se encontram em toda parte do mundo, da Nhecolândia no Pantanal à Avenida Paulista no maior centro financeiro da América Latina.
Como o poeta vivia o circuito Pantanal-Rio e como ele se relacionava com o mundo literário e a “ociosidade criativa”. As intimidades de Manoel de Barros estão nas páginas do livro “Diálogos do Ócio”, literalmente abertas pelo amigo jornalista, a quem confiou seus segredos e passava grande parte do tempo conversando “sobre nada e inutilidades”, exercitando o ócio criativo.
A publicação, que já foi lançada na versão digital pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e agora chega na forma impressa, traz passagens que em momentos variados o poeta relembrava da mocidade, ainda solteiro, na Cidade Maravilhosa. Conheceu Vinícius de Morais, arriscou uma aproximação com Manuel Bandeira, vibrou com Clarice Lispector e “flertou” com Leila Diniz, precursora do topless.
“Manoel de Barros dizia que tudo que inventava era falso, mas o fato é que ele se divertia contando suas intimidades, adorava falar de casos em que havia certa picardia”, diz Bosco Martins em sua obra.
As revelações do íntimo e como o poeta Manoel de Barros viveu a fase mais fértil de criação pensando palavra por palavra enquanto praticava o ócio e como lidava com a trajetória de assombro e descobertas no mundo literário vêm a público como uma “comemoração dos 10 anos de encantamento”, como diz Bosco Martins sobre a despedida do poeta em vida.
Semente no Rio – Manoel de Barros estudou, se formou, casou e construiu sua trajetória literária no Rio. Viveu seus últimos dias em Campo Grande, onde mantinha o seu “escritório de ser inútil”. A casa onde a família viveu virou “museu”. No Rio ficou a semente, Martha Barros, única filha que restou do casamento com Stella Barros.
Martha mora na Barra da Tijuca. É bibliotecária, mas dedica-se às artes plásticas e cuida dos direitos autorais do pai. Carioca, Martha frequentou o atelier de Hélio Rodrigues e frequentou a Escola de Artes Visuais do Parque Lange. Herdou do poeta o lirismo e o gosto de coisas pequenas. A artista vem colocando suas preciosas ilustrações nas obras do pai. Curiosamente, assim como as poesias de Manoel de Barros, poucos conseguem entender a pintura da filha Martha.
- Leitura prazerosa – Em Campo Grande, o livro foi lançado durante a programação dos 107 anos de nascimento do poeta, em dezembro do ano passado. A edição impressa é da Editora de Los Bugres, que já prepara a tradução para o espanhol ao público argentino e paraguaio.
O diretor da Editora de Los Bugres, escritor e poeta Douglas Diegues, diz que o diferencia o livro de Bosco Martins das chamadas obras clássicas, é a narrativa descolada dos padrões formais, permitindo uma leitura prazerosa de uma coletânea com apresentação muito precisa de José Hamilton Ribeiro, responsável por “descobrir” o Pantanal e difundir o bioma nos quatro cantos do mundo através de suas reportagens. “Não é uma obra maçante, chata, sentimentalóide ou pretensiosa. Muito pelo contrário: ficou divertida e de leitura prazerosa, acessível aos especialistas, mas também aos leitores comuns”, destaca o editor Douglas Diegues.
A ideia do “inventário”, segundo Bosco Martins, é mostrar como uma pessoa que abominava a idolatria e tinha fobia à espetacularização, tímida ao extremo, administrava a fama, como criava, como via o mundo e, principalmente, como surgiu o estilo “barreano” e o abecedário “manoelês”, que o poeta chamava de “idioleto arcaico”.
Nas 327 páginas do livro Bosco Martins mostra que a vida de Manoel de Barros era muito simples e que ele estava sempre com um sorriso para receber quem chegasse. As anotações presentes no livro revelam a sensibilidade jornalística e encantamento com Manoel ou ‘MB’, como é chamado no livro. A sigla é o contrário de BM, do Bosco Martins, e assim a dupla é revelada – BM falando sobre MB.
“A vida de Manoel de Barros foi dedicada ao nada. Era para isso que ele prestava. Chegava a sofrer moralmente por só fazer coisas inúteis. Os livros sobre nada de Manoel de Barros tinham poesia, cores, paisagens, palavras inventadas e uma beleza singela…”, diz Bosco Martins, que revela em “Diálogos do Ócios” particularidades que ninguém conheceu.

Embora guardasse alguma similaridade com Guimarães Rosa, Manoel de Barros “era único” e apesar da consagração, nada o lisonjeava. Cada vez que publicava um livro fugia desonrado para o Pantanal, onde era abençoado por garças. Ele gostava mesmo das partes isoladas. Fez do Pantanal um de seus universos preferidos, embora tenha rodado o mundo e se instalado no Rio de Janeiro, centro da efervescência literária”, conta o autor.
Bosco Martins conta em detalhes como foram os principais momentos dos anos de amizade com o poeta. Amizade essa que começou casualmente, nos anos 1980, e se fortaleceu pela afinidade e pontos de vista comuns, como o exercício do ócio e o prazer de extrair ideias durante o “fazer nada”. Antes de ser o homem das pequenezas e das “ignorãças”, Manoel de Barros foi um modernista. O jornalista conviveu com o poeta até um ano antes de sua passagem, quando a amiga e artista plástica Martha Barros, herdeira e única filha do poeta, pediu ao amigo que a partir daquele dia “o pai iria se recolher aos familiares”.
“Decidi escrever sobre a vida de Manoel de Barros para que o público pudesse conhecer a intimidade de um poeta que criava além do tempo, da percepção natural e da concepção multicultural. No prólogo da obra eu digo que o livro é uma grata empreitada em que busco revelar para o público o cotidiano do criador do seu próprio dialeto. O íntimo de um homem simples, que carregava dentro de si um grande poeta, de aguçada percepção da vida, não apenas em suas grandezas, mas, também, em suas pequenezas. Um poeta que transpôs todos conceitos e preconceitos dos hábitos e conhecimentos do homem, mostrando que o inútil é fonte de criação, assim como no ócio também se exercita o pensamento”.
Na ponta do lápis – “Do internato de Campo Grande (1928), ao colégio interno no Rio de Janeiro (1934), foi na década de 1960, ainda no Rio, que Manoel conheceu o jornalista Sérgio de Souza. Sérgio era o editor de texto da revista “Realidade” e tinha um modo particular de trabalhar a escrita nas reportagens.
Tendo como ferramenta apenas um lápis nº 1, ele pinçava as palavras para cortar, realçar ou substituir, na busca da clareza e da precisão. Na imprensa brasileira daquela época, não se cuidava da palavra. Uma reforma editorial dos jornais do Rio tinha implantado o copidesque, de inspiração americana: um redator reescrevia o original dos repórteres, de forma que todo o jornal parecia ter sido escrito por um único (e bom) redator. A fórmula influenciou as redações em todo o país.

O poeta cumpria seus desígnios, entre leituras de clássicos da literatura portuguesa e francesa. Manoel de Barros e Sérgio logo se aproximaram, tinham personalidades parecidas. Além de generosos, eram avessos a entrevistas, tinham pavor de câmeras e microfones.
Os dois eram serenos, falavam baixo, com um sorriso amarelo, meio que infantis. Eram amáveis, mas rigorosos no trato da palavra. Se conheceram em uma redação, onde o poeta levava poemas para publicação. Sérgio mexia no texto, buscando comunicabilidade e emoção, mas sem alterar o estilo do autor.
Curvado sobre a mesa, em silêncio, Sérgio, com suas mãos compridas, dedos longos e finos, assinalava os textos a lápis.
Quando circulava uma palavra com o grafite, ela estava condenada, era preciso achar a palavra certa. Também não era uma boa notícia quando riscava uma frase, um parágrafo, ou um trecho inteiro. Só se via alguma bulha na sala quando quebrava a ponta do lápis: “Alguém pegou o apontador?”
Sobre o autor – Bosco Martins é do interior paulista e se classifica como “um caipira do jornalismo literário”, assim como o amigo José Hamilton Ribeiro, de gerações distantes, mas similaridade nos pensamentos e vocação rural. Natural de Fernandópolis (SP), Bosco Martins, 65, recebeu de seu pai, Waldemar Martins, escritor regionalista, o amor pela literatura e artes em geral. Transferiu-se para Campo Grande (MS) na década de 1980, onde atuou em movimentos culturais e na imprensa, onde foi de repórter a diretor de jornalismo das principais emissoras do Estado de Mato Grosso do Sul e correspondente de jornais nacionais, incluindo revistas como a Bravo e a Caros Amigos, onde colaborou com várias matérias sobre o poeta Manoel de Barros. Presidiu o Fórum Nacional de Emissoras Públicas de Rádio e TV e tem forte participação na fundação da TV Educativa e na renovação e digitalização da sua produção regional. Atualmente divide-se entre Bonito e Campo Grande, onde atua como ambientalista, articulista e colunista nas plataformas digitais.
Em setembro o jornalista lança o livro no SHOPPING IGUATEMI (Av. Faria Lima, 2232, Piso Jardim Paulistano, São Paulo), na 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que acontece de 6 a 15 de setembro no Anhembi.
Os lançamentos estão previstos, ainda em Brasília pela Livraria na CASAPARK, SGCV/Sul Lote 22 – 4ª. Em Ribeirão Preto, RIBEIRÃO SHOPPING, no início de novembro, finalizando com o lançamento no primeiro trimestre de 2025 em Lisboa, Portugal (Rua da Escola Politécnica, 46 onde o poeta tem muitos leitores).
Prêmio Jabuti 2024 – Componente que lastreia o marco da obra sobre Manoel de Barros está no fato do livro ter sido selecionado para concorrer ao prêmio literário na categoria de melhor Biografia-Reportagem deste ano. A 27ª edição do prêmio deve bater o recorde de inscrições de 2023 que foi 4.290 livros inscritos, superando em 25% o volume registrado na edição passada.
NÃO estou DiAcordo com essa imagem estereotipada de Poetas e ARtistas ociosas,ociosos, e loucas , loucos, Espero que Poemas concebidos sem pecado, Manoel de Barros Revolucionário sem armas, e Menino do mato, Ecológico antes de ficar na moda A Tia -Mae, Acentue, Natureza, DIMINUAM ultra -bairrismos nos brasis e outrem realidades, Leiam MULHER e MÍDIA, ano 23 em Julho 24